PARA 2018

“Sabem aquelas famigeradas listas de ano novo onde a gente escreve (de verdade ou mentalmente) tudo aquilo que a gente acha que devia fazer?

Eu desejo que no ano que vem vocês realizem muitas das coisas que não estão nelas.

A psicanálise nos ensina que desejar não é o mesmo que querer, e que é o desejo, e não o querer, o fundamental na nossa vida. Enquanto o desejo não tem objeto, o querer tem. A gente quer coisas, a gente quer pessoas, a gente quer e consegue, a gente quer e falha, e às vezes a gente queria querer, mas na verdade nem quer mesmo, mas não percebe, insiste e sofre.

O desejo, diferentemente do querer, não tem objeto. O desejo é movimento e não se realiza plenamente. De vez em quando o desejo se veste com roupa de querer, aí a gente consegue aquela coisa e pro desejo não morrer, ele se desloca pra outra coisa. Porque desejo é desejo de desejar! Tanto é que as coisas mais deliciosas que a gente consegue na nossa vida, longe de nos satisfazer, elas nos levam a desejar ainda mais coisas.

Amor, por exemplo, que é um tema que me é tão valioso: a gente localiza o nosso desejo no ser amado, mas na melhor das hipóteses, a presença e o amor do outro, longe de nos fazem parar de querê-lo, nos levam a querê-lo ainda mais!

Portanto, é o desejo, e não o querer, o que há de mais valioso em nossas vidas.

É por isso que eu desejo, a cada um de vocês, muitos frios na barriga, borboletas no estômago, pernas bambas. Que a vida lhes passe rasteira sempre que houver um acolchoado no chão da alma pra vocês se afofarem. Que vocês tomem muitos chás, cafés e vinhos com as pessoas que vocês amam. Que vocês possam surpreendentemente resgatar amigos que não sabem dizer o porquê se afastaram. Que vocês comam coisas deliciosas e, quem sabe, até descubram um novo prato preferido  Que vocês aprendam meia dúzia de palavras novas e as incorporem no vocabulário. Que vocês escutem por muitas horas as risadas e os batimentos cardíacos das pessoas que amam. Que vocês conheçam alguém com quem tenham uma afinidade inexplicável à primeira vista. Que algumas sutilezas cotidianas os façam resgatar a esperança mesmo nos dias difíceis, ou, principalmente nos dias difíceis. Que em algum dia de chuva e frio vocês possam passar o dia embaixo das cobertas sem se preocupar demais com o suposto tempo que está sendo aparentemente desperdiçado. Porque a produtividade da vida não se resume à quantidade de horas trabalhadas, de dinheiro juntado, de artigos publicados, de páginas escritas, de itens de check lists riscados. 

Que vocês saibam com o coração, e não só com o cérebro - porque saber só com o cérebro muitas vezes não adianta nada - que as melhores coisas da vida não cabem nas listas, elas escapam às nossas programações e nos fazem sentir verdadeiramente vivos”.

Feliz ano novo!

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